Dois anos de AbruptoImpensável O Abrupto... Tenho de confessar que, por vezes, je le trouve presque agaçant. Mas leio-o, não para saber de recados políticos subliminares - que nem entenderei - mas as outras coisas, os vulcões, a astronomia, os livros descobertos, as coisas simples que ele lá põe de manhã. E leio com gosto isso porque percebe a gente que ele gosta daquilo, das lavas, das órbitas distantes, dos livros descobertos em alfarrabistas com um entusiasmo infantil que o embaraça (e ele sabe disso e joga com isso inteligentemente, mesmo quando se perde, por vezes, em narcismos menos infantis, tentando com que tudo reverta a favor de uma casualidade bem intencionada). Ah, lê-se bem.
A Memória Inventada A crítica de Mexia resume-se à seguinte afirmação: "o Abrupto cria uma ficção do homem inteiramente público, do homem racional e desapaixonado, como se Pacheco não albergasse, como nós todos, traumas e rancores (visíveis a olho nu, de resto)". E então? Pessoalmente, aplaudo. Já não há pachorra para tanto estilo confessional. (...) Aqui na blogosfera, JPP pode ser "o Pacheco", mas convém ter presente que este Pacheco podia ser pai de 95% dos bloggers portugueses. Há uma incompatibilidade geracional difícil de ultrapassar. Acresce que Pacheco é uma figura pública de estilo ortodoxo, cerebral e frio. O que queria Mexia? Que JPP surgisse de repente em registo intimista e a exprimir dúvidas?
(o vento lá fora)* O efeito JPP alavancou, de forma abrupta, a mediatização dos blogues em Portugal. Em finais de 2003 chamei a atenção para o esperável efeito perverso de tal mediatização feita à custa da entrada na rede de figuras públicas (logo mediáticas). Ano e meio depois a tendência tornou-se mainstream e a genuflexão de contornos feudais uma irritante realidade.
Terras do Nunca Poder-se-ia dizer que há uma blogosfera portuguesa antes do Abrupto e outra depois. Mas isso seria redutor. Sem o Abrupto não haveria blogosfera. Existiriam uns blogues, que começariam e acabariam, uns com glória, outros sem. O Abrupto funciona como o polo aglutinador, mesmo daqueles que nunca por lá passaram, mesmo daqueles que fingem que nunca por lá passam.
Sob a estrela do norte O Abrupto, por vezes me entusiasma, outras me enfada, mas nunca dele prescindo.
Miniscente Para mim, o Abrupto não é um deus, mas é um óptimo blogue de visita diária. Nem sempre gosto do que lá vejo. Refiro-me a algumas escolhas estéticas, a reiterados objectos de estudo e a uma certa aridez rítmica que uma ou duas secções inspiram. Mas, por outro lado, o Abrupto é um blogue situado fora do que o senso comum designa por “politicamente correcto” e reflecte o ímpeto independente e livre que, nos tempos que correm, é raro entre nós. Em Portugal há muita gente “liberta”, mas pouca gente realmente livre e afirmativa como é o caso de JPP.
Atrium Há uns dias atrás o Público assinalava a passagem do segundo aniversário do Abrupto com um conjunto de trabalhos sobre o "impacto dos blogs no debate político". (...) o Público terá querido escrever sobre "o impacto dos blogs no debate político" mas escreveu - isso sim - sobre a presença dos políticos na blogosfera (...); o 'circuito fechado' em que aparentemente vivem alguns jornalistas - demonstrado pela relevância dada apenas aos políticos (profissionais ou semi-profissionais) que usam a blogosfera como uma outra plataforma - será, precisamente, um dos factores que potencia o sucesso do formato.
A Barriga de um Arquitecto Faz sentido para alguém que pode (e quer) romper constantemente as fronteiras da blogosfera para a atmosfera. Mas porque se invoca esta capacidade de que os blogues afectem o mundo lá fora como um requisito para a sua maioridade? Os blogues não são um canal para a mediatização; são apenas o nosso monólogo interno que o resto do mundo pode ouvir; uma subscrição para o fio da consciência de cada um. É por isso que o Abrupto é interessante: não por ter eco lá fora, mas porque nos permite olhar lá para dentro, para o interior da cabeça do Pacheco Pereira e tirar de lá o que lhe vai na alma.
Abrupto Já o disse e repito: o Abrupto é o “jornal” que, desde que me conheço, gostaria de ter tido, parte da minha voz. Não a minha voz, mas parte da minha voz. Feita do ruído do mundo, do meu ruído, da fala incessante, dos quadros, dos versos, da música, das palavras, que nos faz o que somos. O Abrupto é sobre isso, o Abrupto é isso.