avatares de um desejo: "Chamei uns quantos braços para ajudar a libertar um senhor que tinha ficado preso, mas a nossa força não bastou e só o macaco havia de o soltar. Andei nestas deambulações salvíficas e às tantas no autocarro só restava eu e o homem que à falta de melhor sorte se ficou a aguardar pelo macaco. Fui em resgate da mochila e saí do autocarro com impossível frieza de sangue.
Cá fora fiquei a saber que só houve dois feridos, ambos muito ligeiros: Flávia, aquela bebé, e uma anciã a quem o motorista implorava em lágrimas: “não se preocupe mamã, vá ao hospital que as suas coisas ficam connosco”. Regressei ainda ao autocarro em busca de água para limpar a ferida da Flávia.
Naqueles poucos instantes, quatro minutos no máximo, agi como os heróis dos filmes: concedi gritos, dei colo a uma bebé, organizei forças, inquiri pelo estado dos mais combalidos. Mas uma coreografia heróica pode bem ser uma dança que busca a redenção. Pelo menos foi-o naquele dia. Suspeito que sim."
22 de novembro de 2005
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