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27 de agosto de 2026

Nas entranhas de uma nuvem

"Decomposta em milhões de moléculas primárias essa agua salgada viajará de novo em direcção à sua nascente, acabando por aflorar como doce, sem memória alguma da sua vida anterior, salvo o irresistível impulso de voltar a completar o seu ciclo. Fá-lo agora, nas entranhas de uns cúmulos - cumulus congestus - que me sobrevoam, seguindo esse compasso infalível que lhes é marcado pela esteira do rio. Um rio que honra o seu nome, de fonte indo-europeia - mei -: caminhar, ir. Fluir, mover-se, viver."

Xesús Fraga, em "Rio Minho: Uma Viagem entre Solstícios (Kalandraka, julho de 2025). 

Lâmina de horizontalidade

"Rebalsado pelo vale, o rio oferece uma lâmina de horizontalidade quase perfeita. Flui silenciosa e lentamente, sem obstáculos que entorpeçam o seu correr. A largura do leito, a amplitude de um horizonte arbóreo uniforme, um rumor quase imperceptivel: tudo convida à contemplação de umas águas onde cintila de forma fugaz, à semelhança de pepitas douradas divisadas abaixo da superficie, a luz amarela do último sol de Novembro. Se batêssemos no rio, como sugeriu o poeta, soaria a «puro ouro».

Xesús Fraga, no primeiro parágrafo do seu livro "Rio Minho: Uma Viagem entre Solstícios (Kalandraka, julho de 2025).