Mostrar mensagens com a etiqueta leituras. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta leituras. Mostrar todas as mensagens

6 de outubro de 2026

Mar de ébano e pesadelo

"Um intenso relâmpago rasgou o céu, ao que se seguiu um gigantesco trovão. O vento ganhou intensidade com fortes rajadas. As nuvens deslizaram pelo céu como corsários dementes num mar de ébano e pesadelo."
Em "A longa caminhada", de Stephen King (Bertrand Editora, julho 2026).

10 de setembro de 2026

Um gigantesco hematoma

 "Em Montana o Sol põe-se no espaço compreendido entre duas montanhas, qual um gigantesco hematoma de onde partem artérias azuladas que se espalham por um céu envenenado."

The Diamond as Big as the Ritz, de Fitzgerald, F. Scott

9 de setembro de 2026

O hábito

"Cheira a café. Distingo as sombras de dois ou três homens encostados ao balcão a cavaquear. Aproximo-me. Peço uma água fresca. Sou obsequiado com a garrafa e um sorriso generoso.

- É o único estabelecimento do Pereiro..

- Já pensei em fechar o negócio muitas vezes. Só não o fiz porque passo os dias aqui no café -- diz-me de chofre a comerciante.

Cismo um bocado. Há uma frase de Raul Brandão de que não me esqueço. «O que custa a largar na vida não é a esplêndida natureza, as grandes ideias, a luta ou as paixões - O que fazemos todos os dias, é o hábito.» Efectivamente."

in "Um tesouro no Deserto, o Algarve entre montes e memórias", de Rui Araújo 

8 de setembro de 2026

A coisa mais ruim nesta vida

"Camilo José Cela diz (Viaje a la Alcarria) que «a coisa ruim que pode acontecer ao homem nesta vida não é o cansaço, todos nós nos cansamos um dia ou outro, é o aborrecimento. Quando Deus se farta de alguém, condena-o ao aborrecimento".

in "Um tesouro no Deserto, o Algarve entre montes e memórias", de Rui Araújo

27 de agosto de 2026

Nas entranhas de uma nuvem

"Decomposta em milhões de moléculas primárias essa agua salgada viajará de novo em direcção à sua nascente, acabando por aflorar como doce, sem memória alguma da sua vida anterior, salvo o irresistível impulso de voltar a completar o seu ciclo. Fá-lo agora, nas entranhas de uns cúmulos - cumulus congestus - que me sobrevoam, seguindo esse compasso infalível que lhes é marcado pela esteira do rio. Um rio que honra o seu nome, de fonte indo-europeia - mei -: caminhar, ir. Fluir, mover-se, viver."

Xesús Fraga, em "Rio Minho: Uma Viagem entre Solstícios (Kalandraka, julho de 2025). 

24 de agosto de 2026

Levar beijos no olhar

"A tarde declinava já. Os campos abandonados espreguiçavam-se a perder de vista, vagamente polvilhados de ouro, de um ouro palido que esmaecia. O rapaz ia calado, embevecido. A cada canto um fantasma, uma recordaçáo; a cada volta da estrada uma saudade. Osolhos prendiam-se-lhe a tudo, pareciam levar beijos no olhar, como se pousassem devotamente em qualquer coisa de sagrado."

Florbela Espanca, em "O dominó preto" (Book Cover, 2023). 

28 de julho de 2026

A pior parte de crescer

"Se não estivéssemos num táxi, talvez tivesse contado. Como estávamos, apoiei a cabeça no seu ombro, como fiz quando era pequeno e achei que meu desenho do peru era a melhor obra de arte desde a Mona Lisa. Digo-vos uma coisa, a pior parte de crescer é fazer-nos calar."


in Depois, de Stephen King (Bertrand Editora, junho de 2022).

19 de maio de 2026

Uma brisa suave que despenteia o pensamento

 Patrick Leigh Fermor, no livro "Tempo de silêncio" (Tinta-da-china, 2018): 

"A carta termina com estas palavras: «Perdoar-me-ás que vá depressa, como faço, para este lugar; afinal, nem sequer Alcméon, depois de descobrir as Equinadas, pôde continuar a suportar uma existência errante.» Há um tom de humanidade e simplicidade nos seus escritos, uma ausência de intolerância que parece soprar como uma brisa suave vinda desses pomares de oliveiras, tamarindeiros e lentiscos, despenteando suavemente a superficie do pensamento e depois deixando-o silencioso e quieto."

Batalhas ganhas

 Patrick Leigh Fermor, no livro "Tempo de silêncio" (Tinta-da-china, 2018):

"Na tradição medieval, as abadias e os conventos foram sempre considerados núcleos inexpugnáveis de resistência contra o domínio infernal na terra. Tornaram-se, por esse motivo, alvos específicos. Diz--se que Satã, quando deu instruções aos seus miseráveis sequazes ao cair da noite, enviou para as capitais apenas um diabo menor. Este demónio solitário, segundo reza a lenda, podia dormir em serviço. Não havia nada para fazer; a batalha estava ganha há muito."

3 de março de 2026

Uma praça com árvores

"Uma praça, uma rua da região com uma fronde arbórea, densa e pomposa, é coisa que se confunde com a própria civilização. Os povoados sem árvores e sem sombras são puros vilarejos sem integração possível. Um povoado que tem sombras tem lugares onde as pessoas se reúnem. Nas minhas viagens a pé procuro estas tertúlias e, se por falta de arvoredo não as encontro, abandono a povoação. Se as há, aproximo-me delas e oiço que dizem as pessoas. Aprendo sempre. Para aprender é preciso ouvir os outros. Desconfiem dos que não escutam - são puros fanáticos, verdadeiros imbecis, dogmáticos grotescos."


Josep Pla, em "Viagem a pé" (Tinta-da-China, 2024).

O mau humor existe

 "Nestas pequenas aglomerações só há, na realidade, três coisas genéricas: a bisbilhotice, o transporte em comum (quando há) para ir ao mercado e o secretário da câmara para a imensa papelada agrário-associativa. (...) Quanto ao resto, a falta de solidariedade, no plano da integração, é total. Não há o menor vestigio de esperança ou de ideal; o menor vestigio de interesse colectivo; o mais pequeno desejo de melhoria de nenhuma espécie; vê-se a mais absoluta indiferença, mesmo para falar do que existe. A solidão é total. O individualismo, feroz. As pessoas estão permanentemente de mau humor. Mau humor porquê, perguntarão. Não sei. Nunca soube. Mas o mau humor existe."

"Viagem a pé" (Tinta-da-China, 2024), de Josep Pla.

Algarve, reino distante

"Mas no Verão é impossível tentar ir ao Algarve, se formos justos com ele. Vamos na Primavera ao Algarve, gozar a paz de ali estarmos descansados, a ver o que é manso ainda, como os pinhais antes de Vilamoura, as encostas de Vale do Lobo, a praia linda de Olhos-d'Água, a longa marginal de Lagos, o caminho das estrelas entre Sagres e Vila do Bispo, nesse cabo esquecido. Vamos ao Algarve, se quisermos - demoramo-nos na Salema e na Maria Luísa, vamos depois até Cacela junto de Tavira, vamos para todo o lado, que o Algarve é longo grande, embora ocupado, reino distante."

Francisco José Viegas, em "COMBOIOS PORTUGUESES: Um Guia Sentimental" (Círculo de Leitores, 1988).

Um veículo sentimental

 "Hoje, o comboio que atravessa Portugal de um lado a outro é um veículo sentimental, visitando paisagens construídas ao longo dos carris, memórias desse outro tempo em que a nossa geografia era também possível distribuída por estações, apeadeiros, ramais, jardins floridos em estações solitárias. Poucos são os que viajam de comboio querendo viajar de comboio - utilizamos, antes, meios de transporte, sempre mais rápidos que o antigo e quase monótono ritmo de uma locomotiva a subir e a descer por vales, a demorar-se no horizonte quase branco de uma planície.

Por isso, os amantes de comboios são gente rara, coleccionadores de emoções repartidas por partidas e chegadas de recordações de viagem a uma estação que geralmente fica desenhada no interior do coração, de viagens nocturnas por lugares desconhecidos, por travessias de um país que conserva os seus carris mas os vai esquecendo perigosamente."

Francisco José Viegas, em "COMBOIOS PORTUGUESES: Um Guia Sentimental" (Círculo de Leitores, 1988).

Geografia sentimental

"Porquê uma geografia sentimental? Precisamente porque está em vias de desaparecer. E o que desaparece cria em nós um alerta e uma surpresa que dificilmente se podem perceber e racionalizar. Em algumas zonas do nosso país, o comboio era a única ligação possível com o mundo, com os outros habitantes do território nacional.

O que nós temos hoje para ver, ainda, dessa geografia, é resto de uma história e de uma saudade: das viagens para um lugar distante ou do ritmo pausado de uma composição que nos iria mostrando, quilómetro a quilómetro, aquilo que ela criava para sempre como paisagem e como referência paisagística."

Francisco José Viegas, em "COMBOIOS PORTUGUESES: Um Guia Sentimental" (Círculo de Leitores, 1988).

O último viajante da Linha do Douro

"É triste o mundo estar a desaparecer, lenta ou apressadamente.

O último viajante da Linha do Douro chorará de tristeza.

É o mais belo dos lugares do mundo, se comparado com outros de ainda igual beleza. É mais prateado dos rios, este rio de ouro, de água brilhante onde as estrelas poisaram para alegria dos que sabem vê-las. É um dos paraisos onde o comboio ainda circula."

Francisco José Viegas, em "COMBOIOS PORTUGUESES: Um Guia Sentimental" (Círculo de Leitores, 1988).

Vivia num comboio

 "No comboio que eu tanto amo. O comboio a que põem um nome, e outro, e outro: primeiro. um nome que condiz com a região por onde passa, depois, mais tarde, um nome que não diz nada. Mas o comboio, esse, é sempre o mesmo, com ou sem nome. Este comboio acorda sempre em mim os mesmos sentimentos. Os mesmos desejos. Uma voracidade de partir o coração pela terra que se vê da janela. Vivia num comboio, se alguém me desse um."

Sam Shepard, citado por Francisco José Viegas, em "COMBOIOS PORTUGUESES: Um Guia Sentimental" (Círculo de Leitores, 1988).

23 de fevereiro de 2026

O atraso ainda é o melhor que temos

 Miguel Esteves Cardoso, na sua crónica no Público, explica porque prefere ler revistas em papel:

"As revistas chegam com uma semana de atraso. Mas eu, sendo português, já estou habituado. O atraso, dizia-me Cesariny, ainda é o melhor que temos.

Se apanho um texto que já caducou, por ter estado muito preso a um momento que depois deixou de ter interesse, passo à frente.
 
Mas são poucos. É a vantagem de esperar uma semana: percebe-se melhor o que é para ficar. As coisas lêem-se com mais prazer quando já passou a pressa."

18 de fevereiro de 2026

Prazeres que um amante de comboios não esquece

 "verificar como o comboio utiliza admiravelmente a paisagem, acordar de madrugada numa estação desconhecida, atravessar uma fronteira no interior de um comboio -- isso são prazeres que um amante de comboios não esquece nunca. Parece que tudo isso foi feito para uma nostalgia muito especial, uma nostalgia feita de ternuras e de contos policiais lidos com êxtase e vontade de repetir emoções já vividas por outros."

Francisco José Viegas, em "COMBOIOS PORTUGUESES: Um Guia Sentimental" (Círculo de Leitores, 1988).

7 de janeiro de 2026

O caminho não liga, atravessa

 Excerto de "Caminhar Uma Filosofia", de Frédéric Gros:

"O caminho não liga, atravessa. Abre este bosque ou aquele vale, à passada do caminhante: é a condição para a revelação, é graças a ele que os descobrimos. Caminhar é sempre homenagear a paisagem."

17 de dezembro de 2025

O valor da natureza selvagem

 Aldo Leopold, em "Pensar como uma montanha" (Maldoror, 2023):

"A capacidade de apreender o valor cultural da natureza selvagem reduz-se, em última análise, a uma questão de humildade intelectual. O homem moderno de mente superficial, que perdeu o seu enraizamento na terra, julga que descobriu já o que é importante; ele é do género de se pôr a palrar de impérios, políticos ou económicos, que hão-de durar mil anos. Só o estudioso compreende e aprecia que toda a história consiste em sucessivas excursões a partir de um único ponto de partida, ao qual o homem regressa uma e outra vez para organizar mais uma busca com vista a uma escala duradoura de valores. Só o estudioso compreende por que razão a crua natureza selvagem confere nitidez e significado à aventura humana."