2 de junho de 2026

Na Terra dos Brinquedos

 Om Malik, num texto sobre canetas e uma das lições mais importantes das aventuras do Pinóquio:

"The algorithmic feed is the Land of Toys. It is built to keep you there past the point of nourishment, past the point where you are even enjoying it. Outrage travels faster than understanding. Spectacle beats judgment. The algorithm doesn’t care whether something is true. It cares whether it moves. And it keeps you scrolling, reacting, and returning in ways that benefit the platform, not you. The political system has learned the same lesson. Governance is slow and grinding and unsatisfying. Performance is fast and shareable. We have built media and political economies that reward entertainers over administrators, and the clean story over the complicated truth."

19 de maio de 2026

Uma brisa suave que despenteia o pensamento

 Patrick Leigh Fermor, no livro "Tempo de silêncio" (Tinta-da-china, 2018): 

"A carta termina com estas palavras: «Perdoar-me-ás que vá depressa, como faço, para este lugar; afinal, nem sequer Alcméon, depois de descobrir as Equinadas, pôde continuar a suportar uma existência errante.» Há um tom de humanidade e simplicidade nos seus escritos, uma ausência de intolerância que parece soprar como uma brisa suave vinda desses pomares de oliveiras, tamarindeiros e lentiscos, despenteando suavemente a superficie do pensamento e depois deixando-o silencioso e quieto."

Batalhas ganhas

 Patrick Leigh Fermor, no livro "Tempo de silêncio" (Tinta-da-china, 2018):

"Na tradição medieval, as abadias e os conventos foram sempre considerados núcleos inexpugnáveis de resistência contra o domínio infernal na terra. Tornaram-se, por esse motivo, alvos específicos. Diz--se que Satã, quando deu instruções aos seus miseráveis sequazes ao cair da noite, enviou para as capitais apenas um diabo menor. Este demónio solitário, segundo reza a lenda, podia dormir em serviço. Não havia nada para fazer; a batalha estava ganha há muito."

3 de março de 2026

Uma praça com árvores

"Uma praça, uma rua da região com uma fronde arbórea, densa e pomposa, é coisa que se confunde com a própria civilização. Os povoados sem árvores e sem sombras são puros vilarejos sem integração possível. Um povoado que tem sombras tem lugares onde as pessoas se reúnem. Nas minhas viagens a pé procuro estas tertúlias e, se por falta de arvoredo não as encontro, abandono a povoação. Se as há, aproximo-me delas e oiço que dizem as pessoas. Aprendo sempre. Para aprender é preciso ouvir os outros. Desconfiem dos que não escutam - são puros fanáticos, verdadeiros imbecis, dogmáticos grotescos."


Josep Pla, em "Viagem a pé" (Tinta-da-China, 2024).

O mau humor existe

 "Nestas pequenas aglomerações só há, na realidade, três coisas genéricas: a bisbilhotice, o transporte em comum (quando há) para ir ao mercado e o secretário da câmara para a imensa papelada agrário-associativa. (...) Quanto ao resto, a falta de solidariedade, no plano da integração, é total. Não há o menor vestigio de esperança ou de ideal; o menor vestigio de interesse colectivo; o mais pequeno desejo de melhoria de nenhuma espécie; vê-se a mais absoluta indiferença, mesmo para falar do que existe. A solidão é total. O individualismo, feroz. As pessoas estão permanentemente de mau humor. Mau humor porquê, perguntarão. Não sei. Nunca soube. Mas o mau humor existe."

"Viagem a pé" (Tinta-da-China, 2024), de Josep Pla.

Algarve, reino distante

"Mas no Verão é impossível tentar ir ao Algarve, se formos justos com ele. Vamos na Primavera ao Algarve, gozar a paz de ali estarmos descansados, a ver o que é manso ainda, como os pinhais antes de Vilamoura, as encostas de Vale do Lobo, a praia linda de Olhos-d'Água, a longa marginal de Lagos, o caminho das estrelas entre Sagres e Vila do Bispo, nesse cabo esquecido. Vamos ao Algarve, se quisermos - demoramo-nos na Salema e na Maria Luísa, vamos depois até Cacela junto de Tavira, vamos para todo o lado, que o Algarve é longo grande, embora ocupado, reino distante."

Francisco José Viegas, em "COMBOIOS PORTUGUESES: Um Guia Sentimental" (Círculo de Leitores, 1988).

Um veículo sentimental

 "Hoje, o comboio que atravessa Portugal de um lado a outro é um veículo sentimental, visitando paisagens construídas ao longo dos carris, memórias desse outro tempo em que a nossa geografia era também possível distribuída por estações, apeadeiros, ramais, jardins floridos em estações solitárias. Poucos são os que viajam de comboio querendo viajar de comboio - utilizamos, antes, meios de transporte, sempre mais rápidos que o antigo e quase monótono ritmo de uma locomotiva a subir e a descer por vales, a demorar-se no horizonte quase branco de uma planície.

Por isso, os amantes de comboios são gente rara, coleccionadores de emoções repartidas por partidas e chegadas de recordações de viagem a uma estação que geralmente fica desenhada no interior do coração, de viagens nocturnas por lugares desconhecidos, por travessias de um país que conserva os seus carris mas os vai esquecendo perigosamente."

Francisco José Viegas, em "COMBOIOS PORTUGUESES: Um Guia Sentimental" (Círculo de Leitores, 1988).

Geografia sentimental

"Porquê uma geografia sentimental? Precisamente porque está em vias de desaparecer. E o que desaparece cria em nós um alerta e uma surpresa que dificilmente se podem perceber e racionalizar. Em algumas zonas do nosso país, o comboio era a única ligação possível com o mundo, com os outros habitantes do território nacional.

O que nós temos hoje para ver, ainda, dessa geografia, é resto de uma história e de uma saudade: das viagens para um lugar distante ou do ritmo pausado de uma composição que nos iria mostrando, quilómetro a quilómetro, aquilo que ela criava para sempre como paisagem e como referência paisagística."

Francisco José Viegas, em "COMBOIOS PORTUGUESES: Um Guia Sentimental" (Círculo de Leitores, 1988).

O último viajante da Linha do Douro

"É triste o mundo estar a desaparecer, lenta ou apressadamente.

O último viajante da Linha do Douro chorará de tristeza.

É o mais belo dos lugares do mundo, se comparado com outros de ainda igual beleza. É mais prateado dos rios, este rio de ouro, de água brilhante onde as estrelas poisaram para alegria dos que sabem vê-las. É um dos paraisos onde o comboio ainda circula."

Francisco José Viegas, em "COMBOIOS PORTUGUESES: Um Guia Sentimental" (Círculo de Leitores, 1988).

Vivia num comboio

 "No comboio que eu tanto amo. O comboio a que põem um nome, e outro, e outro: primeiro. um nome que condiz com a região por onde passa, depois, mais tarde, um nome que não diz nada. Mas o comboio, esse, é sempre o mesmo, com ou sem nome. Este comboio acorda sempre em mim os mesmos sentimentos. Os mesmos desejos. Uma voracidade de partir o coração pela terra que se vê da janela. Vivia num comboio, se alguém me desse um."

Sam Shepard, citado por Francisco José Viegas, em "COMBOIOS PORTUGUESES: Um Guia Sentimental" (Círculo de Leitores, 1988).

23 de fevereiro de 2026

O atraso ainda é o melhor que temos

 Miguel Esteves Cardoso, na sua crónica no Público, explica porque prefere ler revistas em papel:

"As revistas chegam com uma semana de atraso. Mas eu, sendo português, já estou habituado. O atraso, dizia-me Cesariny, ainda é o melhor que temos.

Se apanho um texto que já caducou, por ter estado muito preso a um momento que depois deixou de ter interesse, passo à frente.
 
Mas são poucos. É a vantagem de esperar uma semana: percebe-se melhor o que é para ficar. As coisas lêem-se com mais prazer quando já passou a pressa."

18 de fevereiro de 2026

Prazeres que um amante de comboios não esquece

 "verificar como o comboio utiliza admiravelmente a paisagem, acordar de madrugada numa estação desconhecida, atravessar uma fronteira no interior de um comboio -- isso são prazeres que um amante de comboios não esquece nunca. Parece que tudo isso foi feito para uma nostalgia muito especial, uma nostalgia feita de ternuras e de contos policiais lidos com êxtase e vontade de repetir emoções já vividas por outros."

Francisco José Viegas, em "COMBOIOS PORTUGUESES: Um Guia Sentimental" (Círculo de Leitores, 1988).

23 de janeiro de 2026

Crepúsculo Celta

 "Há uma certa altura do crepúsculo em que todos os homens parecem atraentes, todas as mulheres belas e, ao vaguear lentamente e sem rumo dia após dia, Hanrahan penetrava cada vez mais profundamente nesse crepúsculo Celta, em que o céu e a terra se confundem de tal forma que ambos parecem tomar para si a sombra da beleza do outro."

Onde Nada Existe, W.B. Yeats (Relógio D'Água, 2000, tradução de Margarida Vale de Gato).

7 de janeiro de 2026

Um ato de cidadania com raízes

 Mariana Correia Pinto, no jornal Público, relata a persistência de que Afonso Reis Cabral usou para conseguiu persuadir o ICNF a classificar uma magnólia majestosa do Porto como "árvore de interesse público":

"Afonso Reis Cabral criou uma tarefa quinzenal na sua agenda, compromisso com um “acto cívico colectivo” que decidira encabeçar em 2022 e do qual se recusava a desistir. Quando o lembrete soava, o escritor telefonava ou escrevia um email ao Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF), insistindo na classificação de uma magnólia centenária com raízes no pátio de um prédio da Rua de São Vicente, no Porto.

(...) “Não larguei o osso”, isso recorda ele a sorrir. Agora que o final se escreveu feliz, acredita haver uma “moral da história” a retirar: “Não nos devemos deixar intimidar pelas opressões burocráticas que vivemos. Que isso não intimide actos de cidadania.”

O caminho não liga, atravessa

 Excerto de "Caminhar Uma Filosofia", de Frédéric Gros:

"O caminho não liga, atravessa. Abre este bosque ou aquele vale, à passada do caminhante: é a condição para a revelação, é graças a ele que os descobrimos. Caminhar é sempre homenagear a paisagem."

17 de dezembro de 2025

O valor da natureza selvagem

 Aldo Leopold, em "Pensar como uma montanha" (Maldoror, 2023):

"A capacidade de apreender o valor cultural da natureza selvagem reduz-se, em última análise, a uma questão de humildade intelectual. O homem moderno de mente superficial, que perdeu o seu enraizamento na terra, julga que descobriu já o que é importante; ele é do género de se pôr a palrar de impérios, políticos ou económicos, que hão-de durar mil anos. Só o estudioso compreende e aprecia que toda a história consiste em sucessivas excursões a partir de um único ponto de partida, ao qual o homem regressa uma e outra vez para organizar mais uma busca com vista a uma escala duradoura de valores. Só o estudioso compreende por que razão a crua natureza selvagem confere nitidez e significado à aventura humana."

Ruska

 Ruska: termo finlandês que descreve "a exuberante diversidade de cores outonais das árvores" (no livro "Quarenta árvores", de António Bagão Félix).

Momijigari

 Momijigari:

"é uma tradição japonesa de apreciar as folhas de outono, especialmente as do bordo japonês (momiji), que mudam para tons vibrantes de vermelho, laranja e amarelo, combinando "momiji" (folhas de bordo) e "gari" (caçar) para significar "caça às folhas de outono"

Fonte: Google.

Fonte de energia

 Aldo Leopold, no seu livro "Pensar como uma montanha" (Maldoror, 2023):

"A terra portanto, não é meramente solo; ela é uma fonte de ehergia que flui através de um circuito de solos, plantas e anımais. As cadeias alimentares são os canais vivos que conduzem a energia para cima; a morte e a putrefacção reconduzem-na para o solo. O circuito não está fechado; alguma energia dissipa-se na putrefacção, outra é aumentada ao ser absorvida pelo ar, alguma é armazenada nos solos, na turfa e em forestas de grande longevidade; mas é um circuito permanente, como um fundo giratório de vida que vai lentamente aumentando."

5 de novembro de 2025

Uma das grandes alegrias da vida

 David Byrne, no seu livro "Diário da Bicicleta" (Quetzal, 2010):

"Tenho cinquenta e tal anos, por isso posso confirmar que usar uma bicicleta para nos deslocarmos não é uma coisa apenas para os mais novos e enérgicos. Na realidade, não precisamos do spandex e, a não ser que o queiramos, andar de bicicleta não é necessariamente assim tão cansativo. É a sensação de liberdade — a sensação física e psicológica — que é mais persuasiva do que qualquer argumento em termos práticos. Ver as coisas de um ponto de vista que está suficientemente perto dos peões, dos vendedores e das fachadas das lojas, aliado a uma forma de nos deslocarmos que não se sinta como estando completamente divorciada da vida que ocorre nas ruas, é um puro prazer.

Observar e participar na vida de uma cidade — até mesmo para uma pessoa reticente e muitas vezes tímida como eu — é uma das grandes alegrias da vida."

Uma grande catedral gótica

 David Byrne, no seu livro "Diário da Bicicleta" (Quetzal, 2010):

 

"Para Nova Iorque, Peñalosa recomendou que primeiro se imaginasse o que uma cidade poderia ser. O que uma pessoa desejaria que fosse, que poderia ser alcançado em cem ou mais anos. Tal como com as grandes catedrais góticas, temos de imaginar uma coisa que não vamos ver durante a nossa vida, mas uma coisa que os nossos filhos e netos poderão vir a conhecer. E isso também nos liberta da hipótese de descartarmos uma ideia rapidamente por ser considerada demasiado optimista ou pragmaticamente improvável."

28 de outubro de 2025

A geometria da árvore

 Poema de Marcos Ana (citação parcial do seu livro "Digam-me como é uma árvore", Guerra&Paz, 2009):

Falem-me do mar, falem-me
do aroma aberto do campo,
das estrelas, do ar.

Recitem-me um horizonte
sem fechadura e sem chaves,
como a cabana de um pobre.

Digam-me como é o beijo
de uma mulher. Dêem-me o nome
do amor, não o recordo.

As noites ainda se perfumam
de apaixonados com tremores
de paixão sob a lua?

Ou resta apenas esta fossa,
a luz de uma fechadura
e a canção das minhas lajes?

Vinte e dois anos... Já esqueço
a dimensão das coisas,
a sua cor, o seu aroma... Escrevo

a tactear: «o mar», «o campo»...
Digo «bosques» e perdi
a geometria da árvore.

A cortina de cinismo

 Gary Snyder, no seu "A Prática da Natureza Selvagem" (Antígona, 2018):

"Mas Kerr detetou, com agudeza, que: 

Os desejos secretos nos homens transbordam em consonância com a forma como eles próprios se sentem... livres da cortina de cinismo que assumem em público. O seu profundo desejo criativo de serem mais do que meros trabalhadores obedientes vem ao de cima...  os homens são mais românticos, corajosos e poéticos no sigilo da escuridão... Ouvi um homem, aquele que de entre toda a tripulação usava a linguagem mais obscena, recitar o Cântico dos Cânticos para a escuridão e para o rumorejar do mar de encontro à proa do navio... Sozinho, o homem torna-se aquilo que seria se não fosse forçado a um molde. (The Eager Years: An Autobiography, 1949.)"

Conhecer plenamente

 Nan Shepherd, no seu livro "A montanha viva" (Edições 70, 2022):

"Conhecer plenamente nem que seja um pedaço de campo ou uma terra é uma experiênia para toda a vida."

30 quilómetros de diâmetro

 Gary Snyder, num curioso parêntesis, no seu "A Prática da Natureza Selvagem" (Antígona, 2018):

"Thoreau diz em Caminhada que uma área com trinta quilómetros de diâmetro será suficiente para ocupar uma vida inteira de minuciosa exploração a pé — nunca se conseguirá esgotar os seus detalhes."

Mundo de imperfeições

 "Neste mundo de imperfeições, é com boa vontade que acolhemos até as intimidades mais parciais. E se nele encontrarmos nem que seja uma pessoa com quem conversar abertamente, na companhia da qual não somos sequer obrigados a dissimular a ternura e a modéstia, não teremos motivos alguns para nos zangarmos com o mundo ou com Deus."

Excerto de "Os Prazeres dos Lugares Inóspitos", de Robert Louis Stevenson (Relógio D'Água, 2017).