27 de agosto de 2026

Nas entranhas de uma nuvem

"Decomposta em milhões de moléculas primárias essa agua salgada viajará de novo em direcção à sua nascente, acabando por aflorar como doce, sem memória alguma da sua vida anterior, salvo o irresistível impulso de voltar a completar o seu ciclo. Fá-lo agora, nas entranhas de uns cúmulos - cumulus congestus - que me sobrevoam, seguindo esse compasso infalível que lhes é marcado pela esteira do rio. Um rio que honra o seu nome, de fonte indo-europeia - mei -: caminhar, ir. Fluir, mover-se, viver."

Xesús Fraga, em "Rio Minho: Uma Viagem entre Solstícios (Kalandraka, julho de 2025). 

Lâmina de horizontalidade

"Rebalsado pelo vale, o rio oferece uma lâmina de horizontalidade quase perfeita. Flui silenciosa e lentamente, sem obstáculos que entorpeçam o seu correr. A largura do leito, a amplitude de um horizonte arbóreo uniforme, um rumor quase imperceptivel: tudo convida à contemplação de umas águas onde cintila de forma fugaz, à semelhança de pepitas douradas divisadas abaixo da superficie, a luz amarela do último sol de Novembro. Se batêssemos no rio, como sugeriu o poeta, soaria a «puro ouro».

Xesús Fraga, no primeiro parágrafo do seu livro "Rio Minho: Uma Viagem entre Solstícios (Kalandraka, julho de 2025).

26 de agosto de 2026

A diferença entre liberto e livre

"Pergunta: Mesmo sendo uma pessoa de esquerda, há coisas que inconscientemente ficaram dessa educação [anterior ao 25 de abril]?

Possivelmente. O Foucault dizia que uma pessoa livre é diferente de uma pessoa liberta. E nós fomos pessoas libertas, não fomos imediatamente pessoas livres. Para chegar a esse estatuto de ser livre, há um caminho a fazer. Naqueles primeiros meses, as pessoas libertaram-se com todos os custos que eventualmente isso possa ter. A revolução foi uma coisa lindíssima."

Alice Brito (advogada e escritora), em entrevista a Margarida Davim, na revista Visão, 17.08.26. 

25 de agosto de 2026

Uma árvore constrói-se a partir do ar

"Convém explicar algo simples que não é do conhecimento comum. Uma árvore constrói-se a partir do ar. O carbono entra pela folha, a luz junta-o à água, e o resultado é madeira. O solo onde ela cresceu continua a pesar praticamente o mesmo. Percebi isso há muitos anos a olhar para cinzas. Queima-se um tronco até ao fim e o que sobra no chão cabe numa pá, menos de 1% do peso da madeira, e são os minerais, o cálcio, o potássio, o fósforo, aquilo que a árvore foi buscar ao solo pelas raizes."

Ricardo Meireles, em "A terra que veio agarrada à mão", na revista Visão 17.08.26.

A infâmia à hora do jantar

"(...) a guinada à direita foi tão notória e tão horrível que isto é ser, eventualmente, de extrema-esquerda. A luta pelos direitos humanos, a luta pelo Estado da Palestina, a luta contra o que se está a passar à frente dos nossos olhos em Gaza. A minha geração tinha a memória do que eram os campos de concentração, do que foi o nazismo E hoje vemos situações a repetirem-se com uma brutalidade e uma infâmia... Naquela altura podia dizer-se que não se sabia. Hoje sabe-se E sabe-se à hora de jantar, enquanto a gente descasca a laranja"

Alice Brito (advogada e escritora), em entrevista a Margarida Davim, na revista Visão, 17.08.26.

A vida parece tão maior

Quis a vida que não fosse nada disso, mas que, mesmo assim, ficasse com os bichos e me tornasse entomóloga, com muita satisfação. O universo dos insetos onde se passam alguns dos comportamentos mais peculiares do mundo vivo, é uma dimensão paralela e quando a descobrimos, a vida parece tão maior e admirável."

 Luísa Ferreira Nunes, em "As histórias escondidas nos nomes científicos", na revista Visão.

24 de agosto de 2026

Um verde translúcido de certas asas de libélulas

"E, quando, de manhāzinha, o Sol assomou, todo cor-de-rosa, no horizonte vestido de cores pálidas, de um louro de topázio, de um suave lilás de anémona, num dia verde translúcido de certas asas de libélulas, o nosso homem tinha tanto a certeza de que filho havia de voltar, e voltar rico, como tinha a certeza de existir, certeza firme e funda como firmes e fundas aquelas árvores tinham vivido quase intactas, anos e anos pregadas ao duro chão alentejano."

Florbela Espanca, em "O dominó preto" (Book Cover, 2023).  

Levar beijos no olhar

"A tarde declinava já. Os campos abandonados espreguiçavam-se a perder de vista, vagamente polvilhados de ouro, de um ouro palido que esmaecia. O rapaz ia calado, embevecido. A cada canto um fantasma, uma recordaçáo; a cada volta da estrada uma saudade. Osolhos prendiam-se-lhe a tudo, pareciam levar beijos no olhar, como se pousassem devotamente em qualquer coisa de sagrado."

Florbela Espanca, em "O dominó preto" (Book Cover, 2023). 

18 de agosto de 2026

Não há adjectivos perfeitos

"Se o tempo não parou, esteve perto. Quando, às 19h30, o Sol estava quase a desaparecer trocaram-se os gritos e a euforia por sussurros. "Vai ficar de noite", avisava alguém. E ficou. Quando a Lua tapou a estrela por completo, entrou a festa. Parecia um golo. Ou a passagem de ano. Não há adjectivos perfeitos para uma situação tão única. Em Rio de Onor usaram-se "lindo", "que bonito" ou "uau" e outros que tais."

Tiago Ramalho, "Portugal viu o Sol esconder-se por 26 segundos", no Público de 13.08.26.

28 de julho de 2026

A pior parte de crescer

"Se não estivéssemos num táxi, talvez tivesse contado. Como estávamos, apoiei a cabeça no seu ombro, como fiz quando era pequeno e achei que meu desenho do peru era a melhor obra de arte desde a Mona Lisa. Digo-vos uma coisa, a pior parte de crescer é fazer-nos calar."


in Depois, de Stephen King (Bertrand Editora, junho de 2022).

9 de junho de 2026

O Posto de Escuta voltou às origens

Dois anos depois de ter reativado o Posto de Escuta no charquinho, este blog regressa à sua origem.

A par do extinto Blogo, foi o Posto de Escuta que me lançou nesta aventura incrível no mundo dos blogs e é aqui que espero continuar a partilhar os meus recortes e sublinhados de tudo o que vou lendo por aí.

Se continuam por aí, obrigado por seguirem!

Abraço,
Pedro

2 de junho de 2026

Na Terra dos Brinquedos

 Om Malik, num texto sobre canetas e uma das lições mais importantes das aventuras do Pinóquio:

"The algorithmic feed is the Land of Toys. It is built to keep you there past the point of nourishment, past the point where you are even enjoying it. Outrage travels faster than understanding. Spectacle beats judgment. The algorithm doesn’t care whether something is true. It cares whether it moves. And it keeps you scrolling, reacting, and returning in ways that benefit the platform, not you. The political system has learned the same lesson. Governance is slow and grinding and unsatisfying. Performance is fast and shareable. We have built media and political economies that reward entertainers over administrators, and the clean story over the complicated truth."

19 de maio de 2026

Uma brisa suave que despenteia o pensamento

 Patrick Leigh Fermor, no livro "Tempo de silêncio" (Tinta-da-china, 2018): 

"A carta termina com estas palavras: «Perdoar-me-ás que vá depressa, como faço, para este lugar; afinal, nem sequer Alcméon, depois de descobrir as Equinadas, pôde continuar a suportar uma existência errante.» Há um tom de humanidade e simplicidade nos seus escritos, uma ausência de intolerância que parece soprar como uma brisa suave vinda desses pomares de oliveiras, tamarindeiros e lentiscos, despenteando suavemente a superficie do pensamento e depois deixando-o silencioso e quieto."

Batalhas ganhas

 Patrick Leigh Fermor, no livro "Tempo de silêncio" (Tinta-da-china, 2018):

"Na tradição medieval, as abadias e os conventos foram sempre considerados núcleos inexpugnáveis de resistência contra o domínio infernal na terra. Tornaram-se, por esse motivo, alvos específicos. Diz--se que Satã, quando deu instruções aos seus miseráveis sequazes ao cair da noite, enviou para as capitais apenas um diabo menor. Este demónio solitário, segundo reza a lenda, podia dormir em serviço. Não havia nada para fazer; a batalha estava ganha há muito."

3 de março de 2026

Uma praça com árvores

"Uma praça, uma rua da região com uma fronde arbórea, densa e pomposa, é coisa que se confunde com a própria civilização. Os povoados sem árvores e sem sombras são puros vilarejos sem integração possível. Um povoado que tem sombras tem lugares onde as pessoas se reúnem. Nas minhas viagens a pé procuro estas tertúlias e, se por falta de arvoredo não as encontro, abandono a povoação. Se as há, aproximo-me delas e oiço que dizem as pessoas. Aprendo sempre. Para aprender é preciso ouvir os outros. Desconfiem dos que não escutam - são puros fanáticos, verdadeiros imbecis, dogmáticos grotescos."


Josep Pla, em "Viagem a pé" (Tinta-da-China, 2024).

O mau humor existe

 "Nestas pequenas aglomerações só há, na realidade, três coisas genéricas: a bisbilhotice, o transporte em comum (quando há) para ir ao mercado e o secretário da câmara para a imensa papelada agrário-associativa. (...) Quanto ao resto, a falta de solidariedade, no plano da integração, é total. Não há o menor vestigio de esperança ou de ideal; o menor vestigio de interesse colectivo; o mais pequeno desejo de melhoria de nenhuma espécie; vê-se a mais absoluta indiferença, mesmo para falar do que existe. A solidão é total. O individualismo, feroz. As pessoas estão permanentemente de mau humor. Mau humor porquê, perguntarão. Não sei. Nunca soube. Mas o mau humor existe."

"Viagem a pé" (Tinta-da-China, 2024), de Josep Pla.

Algarve, reino distante

"Mas no Verão é impossível tentar ir ao Algarve, se formos justos com ele. Vamos na Primavera ao Algarve, gozar a paz de ali estarmos descansados, a ver o que é manso ainda, como os pinhais antes de Vilamoura, as encostas de Vale do Lobo, a praia linda de Olhos-d'Água, a longa marginal de Lagos, o caminho das estrelas entre Sagres e Vila do Bispo, nesse cabo esquecido. Vamos ao Algarve, se quisermos - demoramo-nos na Salema e na Maria Luísa, vamos depois até Cacela junto de Tavira, vamos para todo o lado, que o Algarve é longo grande, embora ocupado, reino distante."

Francisco José Viegas, em "COMBOIOS PORTUGUESES: Um Guia Sentimental" (Círculo de Leitores, 1988).

Um veículo sentimental

 "Hoje, o comboio que atravessa Portugal de um lado a outro é um veículo sentimental, visitando paisagens construídas ao longo dos carris, memórias desse outro tempo em que a nossa geografia era também possível distribuída por estações, apeadeiros, ramais, jardins floridos em estações solitárias. Poucos são os que viajam de comboio querendo viajar de comboio - utilizamos, antes, meios de transporte, sempre mais rápidos que o antigo e quase monótono ritmo de uma locomotiva a subir e a descer por vales, a demorar-se no horizonte quase branco de uma planície.

Por isso, os amantes de comboios são gente rara, coleccionadores de emoções repartidas por partidas e chegadas de recordações de viagem a uma estação que geralmente fica desenhada no interior do coração, de viagens nocturnas por lugares desconhecidos, por travessias de um país que conserva os seus carris mas os vai esquecendo perigosamente."

Francisco José Viegas, em "COMBOIOS PORTUGUESES: Um Guia Sentimental" (Círculo de Leitores, 1988).

Geografia sentimental

"Porquê uma geografia sentimental? Precisamente porque está em vias de desaparecer. E o que desaparece cria em nós um alerta e uma surpresa que dificilmente se podem perceber e racionalizar. Em algumas zonas do nosso país, o comboio era a única ligação possível com o mundo, com os outros habitantes do território nacional.

O que nós temos hoje para ver, ainda, dessa geografia, é resto de uma história e de uma saudade: das viagens para um lugar distante ou do ritmo pausado de uma composição que nos iria mostrando, quilómetro a quilómetro, aquilo que ela criava para sempre como paisagem e como referência paisagística."

Francisco José Viegas, em "COMBOIOS PORTUGUESES: Um Guia Sentimental" (Círculo de Leitores, 1988).

O último viajante da Linha do Douro

"É triste o mundo estar a desaparecer, lenta ou apressadamente.

O último viajante da Linha do Douro chorará de tristeza.

É o mais belo dos lugares do mundo, se comparado com outros de ainda igual beleza. É mais prateado dos rios, este rio de ouro, de água brilhante onde as estrelas poisaram para alegria dos que sabem vê-las. É um dos paraisos onde o comboio ainda circula."

Francisco José Viegas, em "COMBOIOS PORTUGUESES: Um Guia Sentimental" (Círculo de Leitores, 1988).

Vivia num comboio

 "No comboio que eu tanto amo. O comboio a que põem um nome, e outro, e outro: primeiro. um nome que condiz com a região por onde passa, depois, mais tarde, um nome que não diz nada. Mas o comboio, esse, é sempre o mesmo, com ou sem nome. Este comboio acorda sempre em mim os mesmos sentimentos. Os mesmos desejos. Uma voracidade de partir o coração pela terra que se vê da janela. Vivia num comboio, se alguém me desse um."

Sam Shepard, citado por Francisco José Viegas, em "COMBOIOS PORTUGUESES: Um Guia Sentimental" (Círculo de Leitores, 1988).