8 de setembro de 2026

A coisa mais ruim nesta vida

"Camilo José Cela diz (Viaje a la Alcarria) que «a coisa ruim que pode acontecer ao homem nesta vida não é o cansaço, todos nós nos cansamos um dia ou outro, é o aborrecimento. Quando Deus se farta de alguém, condena-o ao aborrecimento".

in "Um tesouro no Deserto, o Algarve entre montes e memórias", de Rui Araújo

27 de agosto de 2026

Nas entranhas de uma nuvem

"Decomposta em milhões de moléculas primárias essa agua salgada viajará de novo em direcção à sua nascente, acabando por aflorar como doce, sem memória alguma da sua vida anterior, salvo o irresistível impulso de voltar a completar o seu ciclo. Fá-lo agora, nas entranhas de uns cúmulos - cumulus congestus - que me sobrevoam, seguindo esse compasso infalível que lhes é marcado pela esteira do rio. Um rio que honra o seu nome, de fonte indo-europeia - mei -: caminhar, ir. Fluir, mover-se, viver."

Xesús Fraga, em "Rio Minho: Uma Viagem entre Solstícios (Kalandraka, julho de 2025). 

Lâmina de horizontalidade

"Rebalsado pelo vale, o rio oferece uma lâmina de horizontalidade quase perfeita. Flui silenciosa e lentamente, sem obstáculos que entorpeçam o seu correr. A largura do leito, a amplitude de um horizonte arbóreo uniforme, um rumor quase imperceptivel: tudo convida à contemplação de umas águas onde cintila de forma fugaz, à semelhança de pepitas douradas divisadas abaixo da superficie, a luz amarela do último sol de Novembro. Se batêssemos no rio, como sugeriu o poeta, soaria a «puro ouro».

Xesús Fraga, no primeiro parágrafo do seu livro "Rio Minho: Uma Viagem entre Solstícios (Kalandraka, julho de 2025).

26 de agosto de 2026

A diferença entre liberto e livre

"Pergunta: Mesmo sendo uma pessoa de esquerda, há coisas que inconscientemente ficaram dessa educação [anterior ao 25 de abril]?

Possivelmente. O Foucault dizia que uma pessoa livre é diferente de uma pessoa liberta. E nós fomos pessoas libertas, não fomos imediatamente pessoas livres. Para chegar a esse estatuto de ser livre, há um caminho a fazer. Naqueles primeiros meses, as pessoas libertaram-se com todos os custos que eventualmente isso possa ter. A revolução foi uma coisa lindíssima."

Alice Brito (advogada e escritora), em entrevista a Margarida Davim, na revista Visão, 17.08.26. 

25 de agosto de 2026

Uma árvore constrói-se a partir do ar

"Convém explicar algo simples que não é do conhecimento comum. Uma árvore constrói-se a partir do ar. O carbono entra pela folha, a luz junta-o à água, e o resultado é madeira. O solo onde ela cresceu continua a pesar praticamente o mesmo. Percebi isso há muitos anos a olhar para cinzas. Queima-se um tronco até ao fim e o que sobra no chão cabe numa pá, menos de 1% do peso da madeira, e são os minerais, o cálcio, o potássio, o fósforo, aquilo que a árvore foi buscar ao solo pelas raizes."

Ricardo Meireles, em "A terra que veio agarrada à mão", na revista Visão 17.08.26.

A infâmia à hora do jantar

"(...) a guinada à direita foi tão notória e tão horrível que isto é ser, eventualmente, de extrema-esquerda. A luta pelos direitos humanos, a luta pelo Estado da Palestina, a luta contra o que se está a passar à frente dos nossos olhos em Gaza. A minha geração tinha a memória do que eram os campos de concentração, do que foi o nazismo E hoje vemos situações a repetirem-se com uma brutalidade e uma infâmia... Naquela altura podia dizer-se que não se sabia. Hoje sabe-se E sabe-se à hora de jantar, enquanto a gente descasca a laranja"

Alice Brito (advogada e escritora), em entrevista a Margarida Davim, na revista Visão, 17.08.26.

A vida parece tão maior

Quis a vida que não fosse nada disso, mas que, mesmo assim, ficasse com os bichos e me tornasse entomóloga, com muita satisfação. O universo dos insetos onde se passam alguns dos comportamentos mais peculiares do mundo vivo, é uma dimensão paralela e quando a descobrimos, a vida parece tão maior e admirável."

 Luísa Ferreira Nunes, em "As histórias escondidas nos nomes científicos", na revista Visão.

24 de agosto de 2026

Um verde translúcido de certas asas de libélulas

"E, quando, de manhāzinha, o Sol assomou, todo cor-de-rosa, no horizonte vestido de cores pálidas, de um louro de topázio, de um suave lilás de anémona, num dia verde translúcido de certas asas de libélulas, o nosso homem tinha tanto a certeza de que filho havia de voltar, e voltar rico, como tinha a certeza de existir, certeza firme e funda como firmes e fundas aquelas árvores tinham vivido quase intactas, anos e anos pregadas ao duro chão alentejano."

Florbela Espanca, em "O dominó preto" (Book Cover, 2023).  

Levar beijos no olhar

"A tarde declinava já. Os campos abandonados espreguiçavam-se a perder de vista, vagamente polvilhados de ouro, de um ouro palido que esmaecia. O rapaz ia calado, embevecido. A cada canto um fantasma, uma recordaçáo; a cada volta da estrada uma saudade. Osolhos prendiam-se-lhe a tudo, pareciam levar beijos no olhar, como se pousassem devotamente em qualquer coisa de sagrado."

Florbela Espanca, em "O dominó preto" (Book Cover, 2023). 

18 de agosto de 2026

Não há adjectivos perfeitos

"Se o tempo não parou, esteve perto. Quando, às 19h30, o Sol estava quase a desaparecer trocaram-se os gritos e a euforia por sussurros. "Vai ficar de noite", avisava alguém. E ficou. Quando a Lua tapou a estrela por completo, entrou a festa. Parecia um golo. Ou a passagem de ano. Não há adjectivos perfeitos para uma situação tão única. Em Rio de Onor usaram-se "lindo", "que bonito" ou "uau" e outros que tais."

Tiago Ramalho, "Portugal viu o Sol esconder-se por 26 segundos", no Público de 13.08.26.

28 de julho de 2026

A pior parte de crescer

"Se não estivéssemos num táxi, talvez tivesse contado. Como estávamos, apoiei a cabeça no seu ombro, como fiz quando era pequeno e achei que meu desenho do peru era a melhor obra de arte desde a Mona Lisa. Digo-vos uma coisa, a pior parte de crescer é fazer-nos calar."


in Depois, de Stephen King (Bertrand Editora, junho de 2022).

9 de junho de 2026

O Posto de Escuta voltou às origens

Dois anos depois de ter reativado o Posto de Escuta no charquinho, este blog regressa à sua origem.

A par do extinto Blogo, foi o Posto de Escuta que me lançou nesta aventura incrível no mundo dos blogs e é aqui que espero continuar a partilhar os meus recortes e sublinhados de tudo o que vou lendo por aí.

Se continuam por aí, obrigado por seguirem!

Abraço,
Pedro

2 de junho de 2026

Na Terra dos Brinquedos

 Om Malik, num texto sobre canetas e uma das lições mais importantes das aventuras do Pinóquio:

"The algorithmic feed is the Land of Toys. It is built to keep you there past the point of nourishment, past the point where you are even enjoying it. Outrage travels faster than understanding. Spectacle beats judgment. The algorithm doesn’t care whether something is true. It cares whether it moves. And it keeps you scrolling, reacting, and returning in ways that benefit the platform, not you. The political system has learned the same lesson. Governance is slow and grinding and unsatisfying. Performance is fast and shareable. We have built media and political economies that reward entertainers over administrators, and the clean story over the complicated truth."

19 de maio de 2026

Uma brisa suave que despenteia o pensamento

 Patrick Leigh Fermor, no livro "Tempo de silêncio" (Tinta-da-china, 2018): 

"A carta termina com estas palavras: «Perdoar-me-ás que vá depressa, como faço, para este lugar; afinal, nem sequer Alcméon, depois de descobrir as Equinadas, pôde continuar a suportar uma existência errante.» Há um tom de humanidade e simplicidade nos seus escritos, uma ausência de intolerância que parece soprar como uma brisa suave vinda desses pomares de oliveiras, tamarindeiros e lentiscos, despenteando suavemente a superficie do pensamento e depois deixando-o silencioso e quieto."

Batalhas ganhas

 Patrick Leigh Fermor, no livro "Tempo de silêncio" (Tinta-da-china, 2018):

"Na tradição medieval, as abadias e os conventos foram sempre considerados núcleos inexpugnáveis de resistência contra o domínio infernal na terra. Tornaram-se, por esse motivo, alvos específicos. Diz--se que Satã, quando deu instruções aos seus miseráveis sequazes ao cair da noite, enviou para as capitais apenas um diabo menor. Este demónio solitário, segundo reza a lenda, podia dormir em serviço. Não havia nada para fazer; a batalha estava ganha há muito."