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3 de março de 2026

Geografia sentimental

"Porquê uma geografia sentimental? Precisamente porque está em vias de desaparecer. E o que desaparece cria em nós um alerta e uma surpresa que dificilmente se podem perceber e racionalizar. Em algumas zonas do nosso país, o comboio era a única ligação possível com o mundo, com os outros habitantes do território nacional.

O que nós temos hoje para ver, ainda, dessa geografia, é resto de uma história e de uma saudade: das viagens para um lugar distante ou do ritmo pausado de uma composição que nos iria mostrando, quilómetro a quilómetro, aquilo que ela criava para sempre como paisagem e como referência paisagística."

Francisco José Viegas, em "COMBOIOS PORTUGUESES: Um Guia Sentimental" (Círculo de Leitores, 1988).

4 de setembro de 2025

Tocar com os pés no granito do globo

 "A razão de alguém poder ter o desejo de visitar tanto Luc como Cheylard é algo que ultrapassa por completo as conjeturas do meu espírito sobremaneira criativo. Pela parte que me toca, viajo não para ir a algum lado, mas simplesmente para ir. Viajo pelo prazer da viagem em si mesma. A grande aventura diz respeito ao movimento, está em sentir de modo mais imediato as necessidades e os obstáculos da vida, em descer do colchão de penas da civilização e tocar com os pés no granito do globo, pejado de calhaus cortantes."

Excerto de "Os Prazeres dos Lugares Inóspitos", de Robert Louis Stevenson (Relógio D'Água, 2017).

O pior receio do viajante a pé

 "No final de um dia extenuante, o aguçado e cruel tom do latido do cão é por si mesmo um fastidioso tormento; e para um vagabundo como eu, o cão representa o mundo sedentário e respeitável na sua versão mais hostil. Algo há de clérigo ou de advogado neste curioso animal, e se à criatura não amedrontassem as pedras, nem o mais destemido dos viajantes ousaria andar a pé. Sou dado a um grande respeito pelos cães num ambiente estritamente doméstico; porém, na estrada ou quando durmo ao ar livre, detesto-os e receio-os na mesma e larga medida."

Excerto de "Os Prazeres dos Lugares Inóspitos", de Robert Louis Stevenson (Relógio D'Água, 2017).

10 de fevereiro de 2025

Uma casinha perdida na floresta

 Raúl Brandão descreve uma viagem pelo interior da Madeira no seu "As ilhas desconhecidas":

"Logo que lá chego, paro diante duma casinha perdida dentro da floresta. É térrea, com pequenas janelas de guilhotina viradas para o mar. Não vale nada: é a casca abandonada dum caracol. Mas não parece feita; parece que cresceu ao mesmo tempo que as flores vermelhas que a rodeiam e que lembram uma paixão ou um crime. Árvores, quatro muros velhos à roda, a latada sobre varas à entrada do quintal, e um encanto que não sei explicar e que nasce das coisas simples, que não procuram impor-se à nossa atenção e só nos oferecem a sua simpatia. Eis o sítio ideal para acabar a vida ignorada com os olhos postos no mar e aquecido de Inverno por este sol esplêndido (...)"