Mostrar mensagens com a etiqueta comboios. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta comboios. Mostrar todas as mensagens

3 de março de 2026

Um veículo sentimental

 "Hoje, o comboio que atravessa Portugal de um lado a outro é um veículo sentimental, visitando paisagens construídas ao longo dos carris, memórias desse outro tempo em que a nossa geografia era também possível distribuída por estações, apeadeiros, ramais, jardins floridos em estações solitárias. Poucos são os que viajam de comboio querendo viajar de comboio - utilizamos, antes, meios de transporte, sempre mais rápidos que o antigo e quase monótono ritmo de uma locomotiva a subir e a descer por vales, a demorar-se no horizonte quase branco de uma planície.

Por isso, os amantes de comboios são gente rara, coleccionadores de emoções repartidas por partidas e chegadas de recordações de viagem a uma estação que geralmente fica desenhada no interior do coração, de viagens nocturnas por lugares desconhecidos, por travessias de um país que conserva os seus carris mas os vai esquecendo perigosamente."

Francisco José Viegas, em "COMBOIOS PORTUGUESES: Um Guia Sentimental" (Círculo de Leitores, 1988).

Geografia sentimental

"Porquê uma geografia sentimental? Precisamente porque está em vias de desaparecer. E o que desaparece cria em nós um alerta e uma surpresa que dificilmente se podem perceber e racionalizar. Em algumas zonas do nosso país, o comboio era a única ligação possível com o mundo, com os outros habitantes do território nacional.

O que nós temos hoje para ver, ainda, dessa geografia, é resto de uma história e de uma saudade: das viagens para um lugar distante ou do ritmo pausado de uma composição que nos iria mostrando, quilómetro a quilómetro, aquilo que ela criava para sempre como paisagem e como referência paisagística."

Francisco José Viegas, em "COMBOIOS PORTUGUESES: Um Guia Sentimental" (Círculo de Leitores, 1988).

O último viajante da Linha do Douro

"É triste o mundo estar a desaparecer, lenta ou apressadamente.

O último viajante da Linha do Douro chorará de tristeza.

É o mais belo dos lugares do mundo, se comparado com outros de ainda igual beleza. É mais prateado dos rios, este rio de ouro, de água brilhante onde as estrelas poisaram para alegria dos que sabem vê-las. É um dos paraisos onde o comboio ainda circula."

Francisco José Viegas, em "COMBOIOS PORTUGUESES: Um Guia Sentimental" (Círculo de Leitores, 1988).

Vivia num comboio

 "No comboio que eu tanto amo. O comboio a que põem um nome, e outro, e outro: primeiro. um nome que condiz com a região por onde passa, depois, mais tarde, um nome que não diz nada. Mas o comboio, esse, é sempre o mesmo, com ou sem nome. Este comboio acorda sempre em mim os mesmos sentimentos. Os mesmos desejos. Uma voracidade de partir o coração pela terra que se vê da janela. Vivia num comboio, se alguém me desse um."

Sam Shepard, citado por Francisco José Viegas, em "COMBOIOS PORTUGUESES: Um Guia Sentimental" (Círculo de Leitores, 1988).

18 de fevereiro de 2026

Prazeres que um amante de comboios não esquece

 "verificar como o comboio utiliza admiravelmente a paisagem, acordar de madrugada numa estação desconhecida, atravessar uma fronteira no interior de um comboio -- isso são prazeres que um amante de comboios não esquece nunca. Parece que tudo isso foi feito para uma nostalgia muito especial, uma nostalgia feita de ternuras e de contos policiais lidos com êxtase e vontade de repetir emoções já vividas por outros."

Francisco José Viegas, em "COMBOIOS PORTUGUESES: Um Guia Sentimental" (Círculo de Leitores, 1988).