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29 de setembro de 2026

Há um único dia de férias de verão

"Há um único dia de férias de verão. Não importa quantos anos se passem. Volto ao mesmo dia cristalizado na infância, e outra vez. Não importam as variações. É pouco importante o pormenor do local ou do tempo. O que importa é regressar à praia e àquele dia que se refaz em todos os dias das férias de verão."

Margarida Davim, em "Manifesto: Contra a produtividade, pim! Pela felicidade, pum!", na revista VISÃO.

Um mergulho no mar não serve para nada

"Um mergulho no mar não serve para nada. Uma tarde na areia não tem utilidade. O pôr do sol e uma coisa sem sentido. O luar das noites de verão não produz coisa nenhuma. Todas as coisas verdadeiramente importantes da vida escapam às métricas da produtividade e da utilidade. Como o amor, os beijos, os abraços, os sorrisos, a música, a pintura e a literatura não servem para coisa alguma. E a Humanidade também não. E ainda bem."
Margarida Davim, em "Manifesto: Contra a produtividade, pim! Pela felicidade, pum!", na revista VISÃO.

26 de agosto de 2026

A diferença entre liberto e livre

"Pergunta: Mesmo sendo uma pessoa de esquerda, há coisas que inconscientemente ficaram dessa educação [anterior ao 25 de abril]?

Possivelmente. O Foucault dizia que uma pessoa livre é diferente de uma pessoa liberta. E nós fomos pessoas libertas, não fomos imediatamente pessoas livres. Para chegar a esse estatuto de ser livre, há um caminho a fazer. Naqueles primeiros meses, as pessoas libertaram-se com todos os custos que eventualmente isso possa ter. A revolução foi uma coisa lindíssima."

Alice Brito (advogada e escritora), em entrevista a Margarida Davim, na revista Visão, 17.08.26. 

25 de agosto de 2026

Uma árvore constrói-se a partir do ar

"Convém explicar algo simples que não é do conhecimento comum. Uma árvore constrói-se a partir do ar. O carbono entra pela folha, a luz junta-o à água, e o resultado é madeira. O solo onde ela cresceu continua a pesar praticamente o mesmo. Percebi isso há muitos anos a olhar para cinzas. Queima-se um tronco até ao fim e o que sobra no chão cabe numa pá, menos de 1% do peso da madeira, e são os minerais, o cálcio, o potássio, o fósforo, aquilo que a árvore foi buscar ao solo pelas raizes."

Ricardo Meireles, em "A terra que veio agarrada à mão", na revista Visão 17.08.26.

A infâmia à hora do jantar

"(...) a guinada à direita foi tão notória e tão horrível que isto é ser, eventualmente, de extrema-esquerda. A luta pelos direitos humanos, a luta pelo Estado da Palestina, a luta contra o que se está a passar à frente dos nossos olhos em Gaza. A minha geração tinha a memória do que eram os campos de concentração, do que foi o nazismo E hoje vemos situações a repetirem-se com uma brutalidade e uma infâmia... Naquela altura podia dizer-se que não se sabia. Hoje sabe-se E sabe-se à hora de jantar, enquanto a gente descasca a laranja"

Alice Brito (advogada e escritora), em entrevista a Margarida Davim, na revista Visão, 17.08.26.

A vida parece tão maior

" Quis a vida que não fosse nada disso, mas que, mesmo assim, ficasse com os bichos e me tornasse entomóloga, com muita satisfação. O universo dos insetos onde se passam alguns dos comportamentos mais peculiares do mundo vivo, é uma dimensão paralela e quando a descobrimos, a vida parece tão maior e admirável."

 Luísa Ferreira Nunes, em "As histórias escondidas nos nomes científicos", na revista Visão.

18 de agosto de 2026

Não há adjectivos perfeitos

"Se o tempo não parou, esteve perto. Quando, às 19h30, o Sol estava quase a desaparecer trocaram-se os gritos e a euforia por sussurros. "Vai ficar de noite", avisava alguém. E ficou. Quando a Lua tapou a estrela por completo, entrou a festa. Parecia um golo. Ou a passagem de ano. Não há adjectivos perfeitos para uma situação tão única. Em Rio de Onor usaram-se "lindo", "que bonito" ou "uau" e outros que tais."

Tiago Ramalho, "Portugal viu o Sol esconder-se por 26 segundos", no Público de 13.08.26.

23 de fevereiro de 2026

O atraso ainda é o melhor que temos

 Miguel Esteves Cardoso, na sua crónica no Público, explica porque prefere ler revistas em papel:

"As revistas chegam com uma semana de atraso. Mas eu, sendo português, já estou habituado. O atraso, dizia-me Cesariny, ainda é o melhor que temos.

Se apanho um texto que já caducou, por ter estado muito preso a um momento que depois deixou de ter interesse, passo à frente.
 
Mas são poucos. É a vantagem de esperar uma semana: percebe-se melhor o que é para ficar. As coisas lêem-se com mais prazer quando já passou a pressa."

9 de setembro de 2025

A indiferença

 "Neurobiologicamente, amor e o ódio são muito distintos? Parecem antagónicos, mas estudos de neuroimagem mostram que tanto o amor quanto o ódio activam áreas semelhantes no cérebro, ligadas a emoções intensas e comportamentos impulsivos. Ambos podem coexistir e até alternar-se em relações afectivas complexas. O oposto do amor, na neurobiologia, não é o ódio, mas a indiferença: esta não activa as regiões emocionais, e, por isso, representa o verdadeiro afastamento afectivo."

Luísa V. Lopes, em entrevista ao suplemento Ímpar, do Público (31/07/25).

Cultura

 "Cultura é o sistema de ideias vivas que cada época possui. Melhor: o sistema de ideias das quais o tempo vive."

Jose Ortega y Gass, citado na rubrica "Escrito na pedra", do jornal Público.

4 de setembro de 2025

Uma casa toda iluminada

 "Numa breve passagem que reverbera de significados ambivalentes no entanto, Werner Herzog considera o século XX "um horror", "um erro". Acontece no decurso de um curto manifesto antipsicanálise que talvez involuntariamente também se torna numa boa parábola sobre o cinema: "mais rapidamente preferia morrer do que ir a um psicanalista (..) quando se ilumina todos os cantos de uma casa esta torna-se inabitável", que é uma coisa que também se podia dizer dos filmes que trazem os cantos todos iluminados."

Luís Miguel Oliveira, num artigo do Ípsilon sobre o livro "Cada um por si e Deus contra todos", de Werner Herzog.